mai
14

Leila Pinheiro gravou inúmeros sambas nos seus quase vinte discos dedicados à música popular brasileira. Neste novo show, a cantora passeia por um repertório de sambas inesquecíveis de criadores como Dorival Caymmi, Almir Guineto, Luiz Carlos da Vila, Paulinho da Viola, Jorge Aragão, Zeca Pagodinho e Dona Ivone Lara, entre tantos outros. Leila também interpreta obras primas que fizeram sucesso nas vozes de Clara Nunes, Elis Regina, Roberto Ribeiro, Beth Carvalho e Alcione, por exemplo.

Acompanhada por Thiago da Serrinha (cavaquinho, bandolim e violão), Diogo Cunha (violão sete cordas), Julio Florindo (baixo elétrico), Quininho e Luiz Augusto (percussões) – jovens bambas arregimentados pelo craque Pretinho da Serrinha, que faz uma participação especial no show na Miranda, em 1º de junho, às 21h –, Leila Pinheiro sobe ao palco para homenagear com sua voz e interpretação únicas o mais popular e brasileiro de todos os gêneros musicais. Os ingressos variam de R$ 70 a R$ 100.

Leia a seguir um texto de Nei Lopes, compositor revisitado por Leila neste “Eu canto samba”:

O FINO DO SAMBA
Por Nei Lopes

O samba é tudo aquilo que a gente quer que ele seja. Desde que a gente saiba o que ele quer ser. Foi dentro dos princípios contidos nesta afirmação que o samba nasceu simples batuque de umbigada e se tornou o gênero-mãe da música popular brasileira, símbolo indiscutível de nossa identidade musical. Foi assim que, ao longo de quase um século, o gênero gerou subgêneros, estilos, modalidades… E se internacionalizou transmutado em bossa nova. Exagero? Então, conte aí quantas vezes a bossa nova se disse samba: “Samba de uma nota só”, “Samba do avião”, “Samba em prelúdio”, “Samba de verão”…

Leila Pinheiro, talentosa e antenada, sabe disso. E sabe muito bem o que está fazendo quando traz para o palco o creme mais fino do samba (exaltação, de morro, de mesa, de fundo de quintal, de tendinha, de salão elegante, etc.), nas finas elaborações de músicos e poetas atemporais como Almir Guineto, Jorge Aragão, Arlindo Cruz, Ary Barroso, Ataulfo Alves, Cartola, Dorival Caymmi, Elton Medeiros, Herivelto Martins, Herminio Bello de Carvalho, Ivan Lins, Dona Ivone Lara, Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Paulo Vanzolini, Zé Kéti e Zeca Pagodinho… Que timaço!

Ela sabe que excluir o samba do grande concerto da MPB é apenas uma bobagenzinha mercadológica. Como sabe também que até o fim da década de 60, “samba” era sinônimo de “música popular brasileira”, e que sua cultura e suas possibilidades foram exaltadas em pelo menos treze sambas de Chico Buarque, quatro de Tom Jobim e outros tantos de Caetano Veloso. Leila sabe das coisas! Por isso é ótima vê-la e ouvi-la, agora, no palco, com sua bela voz adornada pelas doces harmonias e altas baixarias de violões, cavaquinho, bandolim, bamboleando nas síncopas de uma percussão escoladíssima.

Nelson Sargento que nos desculpe, mas o samba jamais agonizou. O que ele fez foi se multiplicar – e bem. Estão aí o samba-jazz, o samba-rock, o samba-reggae, o samba-funk que não nos deixam mentir. O samba é tudo aquilo que a gente quer que ele seja. Desde que a gente saiba o que ele quer ser. E Leila Pinheiro, definitivamente, sabe.

abr
12

A camiseta branca respingada de sangue, muita gente correndo em direções sortidas. Grito para ela seguir pela direita e depois, sempre em frente. Uma tocha é lançada conta o meu corpo, agora também um foco de incêndio em plena guerra do tráfico.

No susto, arregalei os olhos atrás da confirmação do meu óbito. A namorada dormia enrolada no edredom sobre lençóis quentinhos, com aquela carinha inocente escarafunchada bem no meio do travesseiro. Beijei-a, aspirando forte o cheiro da boca, do canto do nariz, da têmpora um pouco suada. Beijei-a, me encolhendo ao máximo para caber no abraço sonolento.

- Vigília de novo, amor? – sussurrou, enquanto lutava contra o peso natural das pálpebras adormecidas. – Só um pesadelo, entre tantos sonhos bons. Sabes que amo-te, não sabes?

Por Monica Ramalho
Publicado originalmente na web em 5 de janeiro de 2006

abr
11

Digamos que não há meios de calcular, mesmo por alto, quantas foram as vezes em que faxinei a casa a fim de receber amigos - como faço esta noite: para reunir a turma que me levou até você. Julgo dificílimo chutar um número provável de pessoas que já embriagaram a alma neste escritório de onde escrevo ou dançaram na pista improvisada ali na sala, entre a peça de antiquário e a entrada para o banheiro apertado, que não combina com o resto do apartamento. Essa vontade de festa, de soltar sob a agulha um disco da Nina Simone para celebrar os recentes dias felizes e, quem sabe, com um sorriso leve na boca, acompanhar algum espatifar de copos contra o piso meio cafona, essa vontade, assim, desse jeito tão meu (arrebatado, ingênuo, às avessas), essa vontade há um par de anos esquecida, eu sei exatamente de onde e por quem vem, meu amor…

Por Monica Ramalho
Publicado originalmente na web em 26 de dezembro de 2005

abr
04

Uma canção tocava baixinho no bar. Balcão molhado como a calçada que trouxera Antonia para um conhaque. Chovia gostoso: sem correntes de ar, mas também não fazia calor. Era uma garoa assim-assim, como a vida da moça naqueles meses embaçados, entre o fim do romance e a solidão sem fim. Ela ainda pensava na outra, sobretudo quando o céu desabava daquele jeito. Por minutos, apenas. Segundos, talvez. Pensava até a memória refazer o percurso das correntes – largas como as costas de um atleta, pesadas, enferrujadas. Insolúveis como a imagem de um pássaro na coleira possessiva da retina.


Por Monica Ramalho

Publicado originalmente na web em 11 de dezembro de 2005

abr
03

Três comprimidos para dormir, duas angústias originárias do amor frustrado, um peito rasgado ao meio. Metade dela se agitava; a outra metade mal se movia. De súbito, as pílulazinhas viraram uma cartela cheia – e, puxando assim pela memória, o par de tristezas se desdobrou em incontáveis. Olhos fechados e respiração labiríntica. Quase podia vislumbrar um metal abrindo brechas no peito, até então emaranhado apenas pela corrente tênue dos sentimentos.


Por Monica Ramalho

Publicado originalmente na web em 25 de setembro de 2005

abr
02

Januário trazia no bolso da camisa xadrez a lista de todas as queixas que guardava contra a ex-mulher. Mãe de seus filhos, é verdade. Trinta e um anos juntos. No papel, união sacramentada, só 18. Ou, melhor dizendo, tudo isso: 18 anos. Januário mal se lembrava de haver jurado seu amor à Cleo. Moça direita, sim senhor. Jamais saiu da linha, jamais deu motivo para uma fofoca sequer. Cleo trabalhava pesado na casa e educava muito bem os meninos, enquanto o marido dividia a semana entre biscates no cais e na carpintaria para garantir o sustento da família. A existência da tal lista só era do conhecimento dos mais chegados. Foram eles que certa vez embriagaram o pobre homem na intenção de espiar o conteúdo do papel, já desbotado pela ação do tempo. Mas Januário era forte como um navio valente e conseguiu preservar seu segredo da curiosidade alheia. O que mais intrigava todo mundo é que desde que Cleo foi embora, o velho bradava aos quatro ventos o tanto de mágoa da nega que carregava no peito. Falar que era bom, ele não falava. E quando abria o bico era para enumerar os chamegos que ganhava naquele casamento desfeito há um par de décadas. Em todos esses anos, muita água rolou sob a ribanceira de Januário. E toca de morar sozinho no mesmo casebre até o dia de hoje, quando foram sepultados pela vizinhança no cemitério local seu corpo e sua lista intocáveis.

Por Monica Ramalho
Publicado originalmente na web em 18 de agosto de 2005

abr
01

O ano letivo começaria em uma semana. A mãe puxava a garotinha pelo braço, quando o estojo de lápis de cor reluziu na prateleira que cruzava a loja de ponta a ponta. Irresistível. Acontece que o item valioso ao gosto da pequena não constava na lista exigida pela professora. Ela batia o pé diante da impaciência de Dona Matilde. ‘Para que tanto lápis, minha filha? Você sabe que não temos dinheiro’, alegava a mãe, um bocado envergonhada, sob o olhar cúmplice de outros clientes.

Um homem observava de perto a resignação da miúda, cujos dedos começavam a arroxear, tamanha a pressão com a qual segurava o artigo de desejo. ‘Senhora, posso dar os lápis para a sua menina?’, perguntou, se encaminhando ao caixa. A mãe enrubesceu. ‘Obrigada, mas como posso aceitar essa gentileza?’. Silêncio incômodo ao redor. Matilde hesitou, mas, levada pelas vontades da criança, propôs: ‘Bem, a não ser que meu marido acerte com o senhor assim que sair o ordenado’.

A pequenina relaxou o semblante e se aproximou do estranho, que pediu à vendedora, com satisfação, para embrulhar o presente. Ao receber a embalagem prateada, ainda cheirando à novidade, ela fez bico para acertar a bochecha do homem, num gesto espontâneo da infância. ‘Eu sou o Diego e você é uma mocinha muito linda. Como se chama?’. Ela correu para junto da mãe, feliz com o sonho realizado e respondeu, ganhando distância e um pouco mais que isso: ‘Rosa’.

Por Monica Ramalho
Publicado originalmente na web em 9 de junho de 2005

mar
31

Alívio. E ainda mais um pouco de calmaria por dentro, equivalente à quantidade de sundae de chocolate que derretia na boca – a mesma boca que acabara de anunciar contra a vontade: ‘Só melhoro se falar menos contigo’. Melhora nada. Piora e ela sabe disso. O sorvete agia como ópio gelado, amenizando, ao menos naquele instante, a dor de uma saudade que não esfria nunca.

Por Monica Ramalho
Publicado originalmente na web em 5 de junho de 2005

mar
31

No horário do rush aéreo e terrestre, a baiana chegara no Tom Jobim. Trazia uma mala abarrotada de sonhos e uma sutil necessaire de receios. Afinal, pisara naquela cidade grande por causa de uma paixão do mesmo tamanho. Da carioca, conhecia pela webcam os olhos, a gargalhada e o jeito de alinhar os cabelos com as mãos bonitas. Conhecia a escrita e a voz, trechos do passado e tudo do presente, mas era pelo futuro que se interessava porque viera justamente na intenção de fazer parte dele.

Avistou a mulher de longe. Olhar dançante nas páginas de um livro vermelho como tango. Parecida, parecida. Será que é ela? Avançou mais alguns passos. Sim, agora não restava dúvida. Os sorrisos se encaixaram por baixo dos óculos semelhantes. E pensar em como esse encontro havia sido inusitado até aquele instante, quando, antes mesmo de selar o romance com um longo abraço, leu de relance os dizeres confessionais na camiseta dela: ‘BABY, I LOVE YOU’.

Por Monica Ramalho
Publicado originalmente na web em 26 de maio de 2005

mar
27

Liderado pela artista plástica Anita Ekman Simões e pelo músico Sergio Krakowski, o projeto LAPA EM 3 TEMPOS propõe uma retomada artística da Lapa e uma reflexão sobre o espaço e a coexistência de tempos, valorizando o histórico local e repensando o passado ainda presente, as novas manifestações e as possibilidades geradas por essas conexões.

Na noite de 15 de abril, a partir das 19h, a ocupação vai reunir sob os Arcos da Lapa diversas linguagens e técnicas: ilustrações, animações, paisagens, enfim, imagens projetadas em harmonia com a música feita ao vivo. A programação gratuita terá início com um bate papo entre Krakowski e Anita e o homenageado da noite, Waldir 59, o mais antigo compositor da Portela em atividade.

Apesar de sua extensa contribuição ao samba, somente agora, aos 85 anos, Waldir 59 terá sua obra registrada através do projeto LAPA EM 3 TEMPOS e do documentário que está sendo realizado pelos parceiros da Maranduva Filmes, codirigido por Anita Ekman Simões, Alberto Bellezia e Marcelo Noronha.

Logo após o bate papo, o público vai assistir a uma apresentação multilinguagem: o arco que fica em frente ao histórico Bar Semente será coberto por uma grande tela a fim de projetar as imagens pensadas pela artista plástica que usa ponta de copiões de película como base para suas criações. Somada aos registros de arquivo e à gravações variadas, essa colagem imagética quer propor uma reflexão sobre a história do bairro em relação ao tempo e ao espaço.

Os vídeos estarão intimamente ligados ao show, através da técnica desenvolvida por Sergio Krakowski que permite que os sons emitidos por seu pandeiro sejam convertidos em sinais que comandam as projeções. “Aliamos a alta tecnologia digital de hoje à película, que é um suporte do passado, para dialogar entre as diferentes épocas. Acredito que o espaço escolhido e os gêneros musicais escolhidos serão potencializados pela força das imagens”, diz ele.

Neste espetáculo em que som e música, passado e presente, se encontram totalmente integrados, o público desfrutará de um rico e variado repertório formado por choros, sambas (um deles inédito, que dá nome ao projeto e foi composto por Waldir 59) e os novíssimos choro-funks escritos por Krakowski, pandeirista, que também é doutor em computação musical. Para acompanhar Waldir 59 e Krakowski, foram convidados a cantora Nina Wirtti, o bandolinista Luis Barcellos, o violonista Rafael Mallmith e o percussionista Sandro Carioca.

“LAPA EM 3 TEMPOS faz parte de uma intenção maior, que desenvolvo junto com o Coletivo Chama, de fortalecer a cena artística contemporânea num viés que não segue a ditadura comercial e de entretenimento”, pontua Krakowski. E quem não estiver no bairro nessa noite especial, poderá conferir como foi essa ocupação artística: tudo será documentado para ser veiculado gratuitamente na Internet.

Foto de Nelso Porto, do site www.lanalapa.com.br

Monica Ramalho

Monica Ramalho

Por Val Becker

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