Programe-se para ouvir Clara Nunes no CCBB Brasília!
Com curadoria de Monica Ramalho e Luís Filipe de Lima, também diretor musical e arranjador, a série CONTOS DE AREIA – 70 ANOS DE CLARA NUNES leva ao palco do CCBB Brasília shows inéditos nas vozes de 12 destacados intérpretes da música brasileira, que se apresentarão em duplas, de 12 a 29 de janeiro, em cada um dos seis espetáculos da série. Mais importante do que as atrações, no entanto, é o repertório de Clara Nunes que o público de Brasília vai ouvir novamente ao vivo. Ao longo de seus seis shows, a série apresenta quase uma centena de canções registradas pela cantora.
Monarco e Verônica Ferriani, Joyce e Teresa Cristina, Delcio Carvalho e Maira, Nei Lopes e Nilze Carvalho, Mariene de Castro e Pedro Miranda, e Elton Medeiros e Fabiana Cozza são as duplas de bambas convidadas a nos presentear com o legado de Clara Nunes, esta notável cantora mineira, que deixou um rastro de luz, encantamento e amor à música e ao próximo. As duplas de intérpretes serão acompanhadas por banda especialmente formada para a série. “Ninguém jamais cantou sambas como Clara Nunes. A ideia é homenagear a cantora e trazê-la para o tempo presente. Clara foi a primeira mulher na história do país a bater o recorde de cem mil cópias vendidas e ainda desmistificou o preconceito com as religiões de origem afro-brasileiras”, explica Monica Ramalho, uma das curadoras.
Para o curador, arranjador e diretor musical Luís Filipe de Lima, “os seis shows oferecem um painel extenso e variado de seu repertório. Entre as mais de 200 músicas gravadas por Clara, o destaque vai para a variedade de compositores (de Nelson Cavaquinho a Chico Buarque, passando por Cartola, Vinicius, Candeia e Sivuca) e também para a variedade de gêneros: Clara, afinal, firmou-se como cantora de samba, mas interpretou com igual carisma o repertório romântico de seu início de carreira e também baiões, cocos, afoxés, valsas. Era uma cantora superlativa”, adianta ele.
Vídeos e mesa-redonda
Em meio aos shows, serão exibidos pequenos vídeos que revelam um mosaico de histórias e impressões sobre Clara Nunes do ponto de vista de pessoas próximas (entre eles Alcione, Sergio Cabral, Agnaldo Timóteo, Guinga e Adelzon Alves, além de todos os cantores da série) e também através do depoimento de pessoas flagradas na rua. A ideia aqui é mostrar o quanto de sua memória está na boca do povo. E, para quem quiser saber ainda mais sobre a homenageada, haverá uma mesa-redonda na segunda semana de CONTOS DE AREIA – 70 ANOS DE CLARA NUNES. Participarão o produtor e pesquisador Herminio Bello de Carvalho, o cantor e compositor Nei Lopes e o jornalista Vagner Fernandes, biógrafo da cantora.
A assessoria de imprensa é de Rodrigo Machado, do Território Cultural. Você encontra o rapaz no e-mail: drigo.machado@gmail.com. E para achá-lo rapidinho, ligue (61) 8175.3794.
I {inspiro
ei, velhinha
você estava certa quando,
no átimo da pirraça,
eu mandava tudo às favas,
e você,
algo entre vingativa e mãe,
dizia:
“um dia
vai sentir tanta, mas tanta falta da gente
que vai até chorar”.
II {suspiro
em se tratando dessa espécie de saudade
(sem esperança de matar, visto que a morte já selou o destino ao seu modo)
não há muito a fazer:
chorar, às vezes.
deixar a ausência criar raízes nas artérias do coração.
assumir, sem vergonha nem autopiedade, esse estar à deriva.
você, que é derivado do amor
dessas duas pessoas,
pai e mãe,
hoje apenas latentes
na estratosfera da vida.
Por Monica Ramalho
Em mais uma apresentação da série SESC SAMBA, no Sesc Madureira, o cantor e compositor Nei Lopes convidou dois amigos para compartilhar a festa: Marcos China (um dos pioneiros no desenvolvimento da capoeira na Europa e fabricante de instrumentos de percussão artesanais) e Ivan Milanez (herdeiro direto de criadores como Silas de Oliveira, Dona Ivone Lara e Mestre Fuleiro). Será no dia 25 de novembro, a partir das 19h.
O objetivo desses encontros, que vem acontecendo desde agosto na unidade do Sesc, é colocar em destaque a história do partido alto e de seus principais personagens, reunindo alguns dos atuais representantes dessa antiga arte de fazer samba no improviso. A série vai até 9 de dezembro (portanto, corra se você ainda não foi!) e rola às sextas-feiras, sempre com entrada gratuita!
Luís Filipe de Lima, diretor musical da série, explica que “os partideiros são uma espécie de tropa de elite do samba, capazes de criar versos ao sabor do momento, para o encanto de sua plateia. Eles fazem ao vivo e tiram onda. Por isso, assistir a uma genuína roda de partido-alto é uma experiência única”. Para ele, “os espetáculos do SESC SAMBA exibem a arte dos partideiros, que dialogam entre si e com o público em ritmo de batuque, e ainda abrem espaço para um bate-papo comandado pelo especialista Nei Lopes”.
O repertório estará dividido entre partido-alto tradicional, com temas de domínio público como “Moro na roça”, “Sobrado dourado”, “Barracão é seu” e “Piedade”, e partido-alto estilizado, aqueles sambas que têm a estrutura do partido, mas foram compostos sem a improvisação dos versos, como é o caso de um monte de sambas do Nei Lopes, entre eles “Goiabada cascão”, “Fidelidade partidária” e “Mocotó do Tião” (parcerias com Wilson Moreira) e obras dos discos de Martinho da Vila, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e Fundo de Quintal.
A roda de partido alto conta com a arte de Luís Filipe de Lima (direção musical e violão 7 cordas), Pedro Miranda (pandeiro) mais Pretinho da Serrinha, Thiago da Serrinha e Paulino Dias (percussão).
QUANDO: nos dias 25 de novembro e 9 de dezembro, às 19h
ONDE: na quadra do Sesc Madureira (Rua Ewbanck da Câmara, 90, em Madureira, Rio de Janeiro). Informações pelo telefone 3350.7744
QUANTO: Grátis
ETCÉTERA: 1.000 lugares. Livre
Na noite de 9 de novembro, uma quarta-feira, Delia Fischer dará continuidade à turnê de lançamento do elogiado ‘Saudações Egberto’. Será no Centro Cultural Solar de Botafogo, que vem recebendo os novos e interessantes nomes da cena musical brasileira. Pianista, compositora, arranjadora e cantora, Delia estará acompanhada por Pedro Guedes (violão e baixo), Pedro Mibielli (violino, bandolim, guitarrinha e rabeca) e Naife Simões (bateria, flugelhorn e percussão vocal), a mesma banda que gravou o disco. Será o último show do ano no Rio de Janeiro!
No repertório do show, temas como “O sonho” com harmonias e melodias em tempo desdobrado, “Palhaço” adornado de tons cinematográficos para homenagear Federico Fellini e Ennio Morricone, “Auto-retrato” (parceria de Egberto com Geraldinho Carneiro), com a densidade emocional clicada pela musicista, “Água e vinho”, livre improviso em cima de todas as notas do arranjo original mais “Um outro olhar / Pêndulo” (com letra recém criada de Ronaldo Bastos), “Cor do sol / Loro” (também com letra novinha de Eugenio Dale), “Baião malandro”, “Dança das cabeças”, “Maracatu” e “Saudações” (parceria com Paulo César Pinheiro), de onde saiu o nome do disco.
Para escolher o repertório do álbum, gravado com o patrocínio do Prêmio Sesc Rio de Fomento à Cultura 2011, Delia escutou novamente todos os discos do mestre, “que são ainda incrivelmente atuais e instigantes e me fizeram querer tocar, compor e entrar no universo musical, com a grande vantagem de poder agora realizar com maturidade e colocar um pouco da minha própria visão”, como ela própria define. “Egberto é um músico que possui todas as ferramentas para a criação de obras sinfônicas, canções e ainda tem o dom da improvisação, como os grandes mestres do século XIX. Isso tudo aliado a seu profundo conhecimento da música universal e mantendo o foco no Brasil”, diz.
Como arranjadora e pianista, Delia Fischer está atualmente em cartaz no musical “Beatles num céu de diamantes”, de Charles Möeller e Cláudio Botelho. Também tem viajado pelo país na banda da cantora Ana Carolina, ao lado de Lan Lan na percussão e Gretel Paganini no violoncelo, com o show “Ensaio de Cores”.
Já tradição no calendário cultural do Rio de Janeiro, o CopaFest (www.copafest.com.br) reunirá, mais uma vez, um time de expoentes da música instrumental brasileira radicados em outras cidades do país e também no exterior. Nas edições anteriores, a rapaziada do coletivo Vinil é Arte conquistou o público do festival, abrindo seu baú de raridades nos intervalos entre os shows. A experiência deu tão certo que, para a quarta edição, os curadores Bernardo Vilhena e Carol Rosman decidiram reinventar os bailes de Ed Lincoln a bordo do Clube do Balanço, de São Paulo, e da banda liderada por Lincoln Olivetti, do Rio de Janeiro. VAMOS COLOCAR TODO MUNDO PARA DANÇAR! E, para lembrar os anos dourados dos bailes, não existe melhor cenário do que o Copacabana Palace. O CopaFest será realizado nos dias 20, 21 e 22 de outubro, com shows às 21h, 21h30 e às 23h.
“A música instrumental é a espinha dorsal da música brasileira”, fala Bernardo Vilhena, curador do CopaFest juntamente com Carol Rosman, para quem “a linguagem jazzística derruba dogmas, preconceitos e fronteiras”. Bernardo é poeta, compositor, pesquisador e produtor de discos, shows e festivais de música (entre eles o Live PA, que estreou em Brasília e virá para o Rio de Janeiro em 2012) e Carol já produziu incontáveis shows instrumentais. A proposta dos três dias do CopaFest é fazer o público saborear o melhor da música instrumental brasileira com esses músicos extraordinários.
QUINTA, dia 20 de outubro, às 21h30
MAURO SENISE E GILSON PERANZZETTA CONVIDAM EDU LOBO
Em 2006, Mauro Senise quis apurar as possibilidades instrumentais infinitas da obra de Edu Lobo. O primeiro passo foi levar a ideia a Edu – que não só a recebeu com entusiasmo como se propôs a colaborar com temas inéditos. O segundo passo foi convocar outro grande músico, arranjador, compositor, pianista, parceiro antigo, como ele íntimo da música brasileira e do jazz e com igual sensibilidade para descobrir novos caminhos musicais: Gilson Peranzzetta. O resultado é uma requintada homenagem a Edu Lobo no elogiado “Casa Forte – A música de Edu Lobo”, de 2006. Senise e Peranzzetta se apresentam com Zeca Assumpção (contrabaixo), Rafael Barata (bateria) e o Quarteto dos Sonhos, que é formado por Bernardo Bessler (violino), José Alves (violino), Christine Springuel (viola) e Yura Ranesky (violoncelo). Edu Lobo vai fazer uma participação especial no CopaFest, que terá em seu palco, pela primeira vez, o uso da voz como instrumento.
SEXTA, dia 21 de outubro, às 21h
CLUBE DO BALANÇO
Fundado em 1999, o Clube do Balanço é a combinação nada aleatória de nove músicos que têm em comum a paixão pelo samba rock. Inicialmente, eles se uniram com o propósito de fazer um baile nos moldes daqueles clássicos da periferia de São Paulo nos anos 70, mas o sucesso foi tremendo e eles montaram uma senhora banda para tocar tudo ao vivo. Liderado por Marco Mattoli na guitarra, o som dessa rapaziada traz o samba na base, um toque de jazz, outro de soul, aquele plus de boogie woogie mais funk setentista e, naturalmente, muito samba rock. O Clube do Balanço é completado por Marcelo Maita (teclados), Gringo Pirrongeli (baixo), Reginaldo Gomes (trompete), Edu Salmaso (bateria) e Fred Prince (percussão), além de Mattoli. O público do CopaFest terá a oportunidade de vibrar e dançar com a reinvenção desses bailes – E EM VERSÃO INSTRUMENTAL ESPECIALMENTE CRIADA PARA O COPAFEST!
SEXTA, dia 21 de outubro, às 23h
LINCOLN OLIVETTI
Ainda na noite de sábado, outro instrumentista que colocava todo mundo para dançar nos clubes do subúrbio do Rio: o tecladista Lincoln Olivetti, que será acompanhado por uma super banda com direito a teclados de Donatinho e guitarra de Davi Moraes. Olivetti prestará uma homenagem a Ed Lincoln, que esse ano completa 60 anos de carreira e, em maio de 2012, oito décadas de vida. Aos 13 anos, Olivetti já animava os bailes com o seu próprio conjunto, garantindo, desde já, vivência e conhecimento dos mais variados gêneros musicais. Iniciou os cursos de música e engenharia eletrônica na universidade e, apesar de abandoná-los no meio, baseou seu trabalho no uso da eletrônica na música, tornando-se um dos pioneiros no país. Nos anos 80, se destacou como produtor e arranjador, criando uma embalagem pop para discos de estrelas como Gilberto Gil, Tim Maia, Rita Lee, Caetano Veloso e Zizi Possi. Ficou conhecido como “feiticeiro dos estúdios” e “mago do pop”.
SÁBADO, dia 22 de outubro, às 21h
ARTHUR VEROCAI
Vamos apresentar pela primeira vez no Rio de Janeiro o concerto “Timeless”, do incensado Arthur Verocai. Dono de uma carreira consistente como compositor e arranjador, Verocai foi gravado por intérpretes como Elis Regina, Ivan Lins, MPB-4 e Leny Andrade. Sua verve de arranjador está presente em discos de Marcos Valle, Gal Costa, Elizeth Cardoso e Nelson Gonçalves. Seu primeiro álbum solo, “Arthur Verocai”, de 1972, foi incompreendido na época de seu lançamento e só conquistou a honra devida recentemente, quando Verocai foi redescoberto no exterior por DJs e rappers e, em seguida, pela imprensa e pelo público. Ainda colhe os louros por ter dirigido, em 2009, esse concerto em Los Angeles para uma plateia em êxtase. Ele esteve à frente de uma orquestra de 30 músicos, incluindo Airto Moreira e sua filha Diana Booker. Essa noite gloriosa foi registrada no filme “Timeless”. É muita honra colocar Arthur Verocai na galeria dos grandes nomes do CopaFest!
Sábado, dia 22 de outubro, às 23h
AIRTO MOREIRA
Poucos músicos brasileiros tocaram com alguns dos maiores nomes da música mundial no último século. Airto Moreira é um deles. Baterista, percussionista e compositor, Airto integrou o legendário Quarteto Novo, considerado fundador da moderna música instrumental brasileira, e integrou as bandas de Miles Davis, Keith Jarret, Chick Corea, Wayne Shorter, Hermeto Pascoal, Stanley Clark, Egberto Gismonti, Ron Carter, Herbie Hancock, Santanna, Cannonball Adderley, Eumir Deodato e Milton Nascimento. Foi Airto quem elevou a percussão brasileira a um novo patamar na história do jazz e da música norte-americana. Ao lado da mulher, a cantora Flora Purim, ele abriu portas para outros músicos e expandiu os limites da sonoridade brasileira no exterior. Virá acompanhado pela Eyedentity, coletivo do qual faz parte sua filha com Flora, Diana Booker. Curitibano radicado em Los Angeles, Airto Moreira vai festejar seus 70 anos no CopaFest.
Todos os dias do festival, a partir das 20h
LOUNGE COPA FEST
Será comandado pelos DJs Tuta e Pedro, do coletivo Vinil é Arte, que está no CopaFest desde a primeira edição. Com uma coleção de mais de 5 mil LPs, eles levam sua pesquisa ao público discotecando em festas, eventos e festivais, nas quais apresentam uma seleção das músicas nacional e estrangeira que é, de fato, o fino do vinil. Para o CopaFest, a dupla vem preparando seleções especiais do instrumental brasileiro, de acordo com as atrações de cada ano. Vai do samba ao jazz, do groove ao berro da cuíca, num show para ser visto e, sobretudo, ouvido.
O COPAFEST É UMA REALIZAÇÃO DA M´BARAKÁ EXPERIÊNCIAS RELEVANTES (www.mbaraka.com.br), um grupo multidisciplinar de criação que une cultura, arte, design, tecnologia e estratégia para modelar projetos que provocam, informam e transformam pessoas ao fazer uso de conteúdos pertinentes em linguagens inovadoras. Há seis anos no mercado, a M’Baraká (pronuncía-se ‘ambaraká’) foi se moldando informalmente, a partir da troca de experiências e elaboração de projetos entre os sócios Diogo Rezende e Isabel Seixas, que se conhecem de longa data.
QUANDO: dias 20, 21 e 22 de outubro, com shows às 21h, 21h30 e 23h.
lounge com Vinil é Arte a partir das 20h
ONDE: Copacabana Palace – Av. Atlântica, 1702, em Copacabana (entrada pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana, 291, Rio de Janeiro). Tel: 2548-7070
QUANTO: dia 21 – R$ 60 / dias 20 e 22 – R$ 80 por show
*Na compra de dois ou mais shows 15% de desconto (promoção não cumulativa e não válida para meia entrada)
**Meia entrada de acordo com a legislação do Estado do Rio de Janeiro
SITE: www.copafest.com.br
FOTOS DE DIVULGAÇÃO: www.mbaraka.com.br/FOTOS_CopaFest_2011.zip
BELMIRA COMUNICAÇÃO
Monica Ramalho
21 2535.7963
21 9163.0840
moniramalho@gmail.com
Gosto especialmente de Amelia Rabello. Senti muito ter perdido, na véspera de minha vinda para a Bahia agora, a apresentação dela no Teatro Rival. Só tinha aquele dia para ficar no Rio e precisava encontrar Inês Pedrosa, a escritora portuguesa que também adoro — e que ia viajar para Lisboa na mesma quarta-feira em que embarquei para Salvador. Um dia falo mais sobre Inês. Agora quero escrever algumas palavras sobre Amelia.
Eu a ouvi pela primeira vez num show de Paulinho da Viola. Ela fazia coro e, em meio ao espetáculo, Paulinho a convidava para cantar sozinha uma canção. Fiquei impressionado com a aparição da alma do samba assim exposta numa precisão musical de cantor jazzístico. Era como se o espírito de Dona Ivone Lara estivesse no domínio do aparelho de cantar de uma Elis Regina. Toda a exuberância do pianista Cristovão Bastos (com quem partilhei o palco na primeira temporada da Banda Black Rio, nos anos 1970), que mais parece um desperdício de alterações harmônicas — como é frequente em instrumentistas de jazz pós-bebop e em todo o samba-jazz brasileiro — ganha sentido de necessidade. Se, nos trabalhos com Paulinho, Cristóvão mostra sempre sensibilidade profunda para o vocabulário do samba, com Amelia ele chega à economia perfeita e à adequação total. Mas é o canto dela que parece fazer — de modo exigente — a liga. Seu timbre já explica cada escolha harmônica de um ponto de vista culto. Da cultura do samba carioca em suas manifestações mais puras. Claro que é Paulinho quem paira sobre tudo isso: sem ele essa história não estaria no estágio em que está. Mas Amelia parece material bruto. Mesmo que Paulinho seja o mestre que veio de mais perto do núcleo do samba, Amelia, que ouviu o chamado e chegou perto, soa como se ela própria fosse uma das referências a que ele tem de se reportar. Seu novo disco — com Cristóvão no piano e nos arranjos e quase todo composto de letras de Paulo César Pinheiro (mas com um Radamés sobre Ataulfo e um Ataulfo pouco conhecido, além de um Roque Ferreira, um Moacyr Luz e um Pedro Amorim) — chama-se “A delicadeza que vem desses sons” e deve ser ouvido por quem quer que queira entender de samba e de cantoras.
Por Caetano Veloso
Publicado em 18 de setembro, na coluna que assina no Segundo Caderno, d´O Globo
Iniciando as festividades pelas suas quatro décadas de carreira, a serem completadas em 2012, Amelia Rabello lança seu quinto álbum solo pela Acari Records, ‘A delicadeza que vem desses sons’, com arranjos de Cristovão Bastos e produção de Luciana Rabello. Os primeiros shows serão realizados nos dias 13 e 14 de setembro, às 19h30, no Teatro Rival Petrobras. O disco é um mergulho nas águas profundas (e, no caso, serenas) dos sentimentos humanos. Ao longo de 13 faixas, a voz de Amelia reverbera como um vento praiano e o que se ouve tem gosto de maresia, vem no ritmo das ondas e se mistura às nossas emoções mais particulares – que, por isso mesmo, soam universais.
“Amelia Rabello é uma cantora de apurados recursos técnicos e repertório marcadamente brasileiro, com muito samba, choro, modinha e toada, cuja tônica é o bom-gosto e a precisão do canto coloquial, na melhor tradição da música urbana carioca herdada de Elizeth Cardoso, Ciro Monteiro, Araci de Almeida, Cartola e Elis Regina”, enumera a irmã Luciana, cavaquinista e sócia de Mauricio Carrilho na Acari Records, responsável pelo lançamento. Qualidades como essas foram atestadas há muito por nomes ilustres da música popular brasileira, como Paulo César Pinheiro, Raphael Rabello, Paulinho da Viola e Caetano Veloso, que compôs “Samba para Amelia”, inspirado e dedicado à intérprete.
O roteiro escolhido pela cantora traz inéditas de compositores veteranos, entre eles Radamés Gnattali, Ataulfo Alves, Baden Powell, Pedro Amorim, Moacyr Luz, Roque Ferreira e os supracitados Paulo César Pinheiro, Luciana Rabello e Cristovão Bastos. Há também duas obras dos jovens compositores Ana Rabello e Julião Pinheiro, sobrinhos dela e filhos de Luciana e PC Pinheiro. “Ao mesmo tempo em que é um disco fora do seu tempo, se mantém atualíssimo porque fala da solidão, tão comum nesses dias tecnológicos. Percebo que as pessoas hoje têm muito medo de sentir e aviso logo que esse disco veio para mexer e remexer nos assuntos do coração”, diz Amelia.
Nos dois shows, a cantora será acompanhada por Cristovão Bastos no piano e na direção musical, Luciana Rabello no cavaquinho, Rui Alvim nos sopros, Julião Pinheiro no violão de 7 cordas, Glauber Seixas no violão Magno Julio e Marcus Thadeu na percussão. O roteiro é de Paulo César Pinheiro.
COMENTÁRIOS SOBRE CADA FAIXA
1. “SANTA VOZ” (parceria de Baden Powell e Paulo César Pinheiro) – Um samba com personalidade, dentro da linha melódica do Baden, que é muito singular. Baden mexeu nas últimas estrofes e mostrou a Teca Calazans, que a gravou com a letra mostrada pelo Baden. Paulinho não gostou e só agora o samba é gravado com a letra original. E essa apoteose ao cantor encontra na voz de Amelia uma gravação esplendorosa.
2. “SEU ATAULFO” (parceria de Radamés Gnattali e Paulo César Pinheiro) – A música foi feita por Radamés e faz parte de uma série que ele entregou para que Paulinho letrasse. Existe uma gravação instrumental do Radamés, já com esse nome pois é uma homenagem ao Ataulfo Alves. É um samba no estilo do Ataulfo, como Radamés fez na “Suíte Retratos”, homenageando Anacleto de Medeiros, Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga e Pixinguinha. Com direito a um solo de Cristovão Bastos, herdeiro do espirito pianístico de Radamés.
3. “TEMPO PERDIDO” (samba de Ataulfo Alves) – Só tem dois registros antigos: da Carmem Miranda e do próprio compositor. Amelia gosta muito desse samba desde a infância.
4. “PELA NOITE” (choro-canção de Luís Moura, Afonso Machado e Paulo César Pinheiro) – Uma saga desses três compositores que narram as aventuras de um boêmio solitário na Lapa de outrora. A primeira se chama “Depois dos Arcos”, a segunda, “Boêmio” (favorita de Caetano Veloso, citada no álbum ‘Livro’), que Amelia gravou no disco ‘Saravá Brasil’. Essa é a terceira de uma série que já está na oitava canção.
5. “DESCUIDO” (parceria de Julião Pinheiro e Paulo César Pinheiro) – É uma valsa contemporânea, violonística na mais fiel tradição das valsas brasileiras. Discípulo musical de Dino 7 Cordas, Julião é um rapaz de 24 anos que faria o tio Raphael Rabello se orgulhar.
6. “TANTA DESPEDIDA” (samba de Moacyr Luz) – Foi feito especialmente para a Amelia Rabello. De Moa, a cantora já havia gravado ‘Saravá Brasil” que deu nome a um disco que vendeu abundantemente no Japão mesmo sem que ela tivesse colocado os pés na terra dos olhos puxados.
7. “CHAVE DA PORTA” (parceria de Luís Moura e Paulo César Pinheiro) – É um samba-canção impressionista que bebeu direto na fonte de Tom Jobim.
8. “VELHO NINHO” (parceria de Cristovão Bastos e Paulo César Pinheiro) – Samba inédito e da mais nova safra dessa dupla, que já foi gravada por Amelia em discos anteriores, fala da solidão contemporânea, da busca da felicidade. É um samba dolente, estilo de samba que está meio esquecido.
9. “ESTIGMA” (parceria de Luciana Rabello e Paulo César Pinheiro) – Esse samba-canção instrumental foi entregue a Paulinho pela mulher, Luciana, assim que foi feito. Ela diz que queria letra – e dele. Geralmente, é tocado nas rodas com uma levada de regional, mas no disco acabou ficando numa versão piano e voz, com andamento mais livre. Remete às composições de Garoto.
10. “VELHOS CHORÕES” (parceria Luciana Rabello e Paulo César Pinheiro) – Um clássico nas rodas de choro do mundo. Certa vez, Luciana chegou no Japão e estavam tocando esse choro. Também nasceu instrumental e foi gravado no disco solo da cavaquinista, há 11 anos. O nome do álbum de Amelia saiu de uma frase dessa letra. É uma homenagem às nossas origens musicais e a prova de que choro pode ser cantado. O arranjo faz referência a outro clássico: “Vibrações”, de Jacob do Bandolim.
11. “ALMA VAZIA” (samba de Roque Ferreira) – O compositor baiano é mais conhecido pelos seus sambas de roda, mas eis uma oportunidade para ouvir outra faceta de Roque: este é um samba urbano carioca, com influência direta de Ataulfo Alves. Vale lembrar que Amelia gravou “Ralador” no disco mais recente de Roque, a convite dele.
12. “GOTA DE MÁGOA” (parceria de Ana Rabello e Paulo César Pinheiro) – Mais um samba de uma compositora da nova geração com influência nítida de Mauro Duarte, parceiro de Paulinho. Ana é afilhada de Amelia e herdeira da escola de cavaquinho da mãe, Luciana. Além das riquezas harmônica e melódica, traz uma modulação lindamente incomum.
13. “COM AS MÃOS VAZIAS” (samba de Pedro Amorim) – Emoldurado por um clima misterioso, segue a linha triste das obras de Cartola e Nelson Cavaquinho – linha, digamos, um pouco esquecida em virtude da alegria turística que vem sendo cada vez mais exigida dos sambistas. Simples e sofisticada como todo o disco.
QUANDO: 13 e 14 de setembro, terça e quarta-feira, às 19h30
ONDE: Teatro Rival Petrobras (Rua Álvaro Alvim, 33 a 37, Cinelândia, Rio de Janeiro)
QUANTO: R$ 40 (inteira), R$ 30 (para os 200 primeiros pagantes através do e-mail: ingresso@acari.com.br) e R$ 20 (para estudantes, professores da rede municipal e maiores de 65 anos)
Por Monica Ramalho
Foto de Carol de Hollanda
Finalmente, o autor de “Senhora liberdade” vai inaugurar o seu Centro Cultural Solar de Wilson Moreira no sábado, 27 de agosto, a partir das 15h! O convidado especialíssimo da festa será o cantor e compositor Luiz Melodia. O anfitrião chamou outros dois grandes amigos para engrossar o coro e fazer todo mundo sambar até o amanhecer: os cantores Iracema Monteiro e Agenor de Oliveira. Nesse dia, o cineasta paulistano Germano Fher vai dar continuidade às filmagens de seu documentário sobre Moreira. Tudo temperado com a feijoada e os caldos saborosos da Dona Sophia, claro. A assessoria é da Belmira Comuncação. Ingressos a R$ 10.

No roteiro de Wilson Moreira, aqueles clássicos que todo mundo canta junto, como “Gostoso veneno” (com Nei Lopes), “Banho de felicidade” (com Adauto Magalha), “Formiga miúda” (com Sérgio Fonseca) e “Oloan”, sem parceiro, entre outras maravilhas do samba carioca. Wilson é um profundo admirador da obra de Luiz Melodia e, na verdade, ambas as criações são interligadas pela ancestralidade que aproxima a Praça Onze do Estácio. “A Praça Onze é o berço do samba e o Estácio, a balança do samba, onde os primeiros sambistas se reuniam”, contextualiza a pesquisadora Ângela Nenzy, mulher e produtora de Moreira.
“A obra de Wilson Moreira é largamente reproduzida em rodas de samba, espetáculos musicais e gravada por vários intérpretes da MPB, como Roberto Ribeiro, Clara Nunes, João Nogueira e nomes da nova geração, entre eles Roberta Sá. Em suas composições é possível notar a contribuição à valorização de patrimônios culturais tombados no Brasil, como o samba carioca”, diz Ângela. “Todo esse legado será disponibilizado ao público no Centro Cultural Solar de Wilson Moreira”, completa ela, sorridente.
A partir de setembro, o Centro Cultural Solar Wilson Moreira vai abrir as incrições para candidatos às oficinas de violão, cavaquinho, sopros, pandeiro e percussão. Em paralelo ao ensino musical, haverá outros cursos livre para a comunidade, de culinária, artesanato, reciclagem, dança e teatro, além de aulas de alfabetização para adultos e reforço escolar para a criançada. A ideia de Ângela Nenzy é realizar um ‘Wilson Moreira recebe’ por mês e um show instrumental por semana, sob os cuidados de Paulão 7 Cordas, que também assina a direção musical do novo disco do sambista, ‘Wilson Moreira + Baticun’, em vias de ser lançado.
O Centro Cultural Solar Wilson Moreira fica na Rua Barão de Ubá, 46, Praça da Bandeira. Informarções e reservas devem ser feitas pelos telefones 3241.7300 e 7168.0078.
O cantor e compositor Nei Lopes vai comandar sete rodas de partido-alto na quadra de 1.000 lugares do Sesc Madureira a partir de 26 de agosto, às 19h. Em cada show da série SESC SAMBA, Nei vai receber dois convidados. Na estreia, será a vez de Tantinho da Mangueira e Marcos China. Os encontros pretendem colocar em destaque a história do partido-alto e de seus principais personagens. Vai até 9 de dezembro, sempre às sextas-feiras e com entrada gratuita.
“Os partideiros são uma espécie de tropa de elite do samba, capazes de criar versos ao sabor do momento, para o encanto de sua plateia. Eles fazem ao vivo e tiram onda. Por isso, assistir a uma genuína roda de partido-alto é uma experiência única”, avisa o múltiplo Luís Filipe de Lima, curador e diretor musical da série, produzida por Leila Dantas e divulgada pela Belmira Comunicação.
O curador explica que “os espetáculos exibem a arte dos partideiros, que dialogam entre si e com o público em ritmo de samba, e ainda abrem espaço para um bate-papo comandado pelo especialista Nei Lopes”. A bordo do seu violão 7 cordas, Luís Filipe de Lima estará no palco com Sérgio Procópio no cavaquinho, Pedro Miranda no pandeiro mais o trio Pretinho da Serrinha, Thiago da Serrinha e Paulino Dias quebrando tudo na percussão.
O repertório estará dividido entre partido-alto tradicional, com temas de domínio público como “Moro na roça”, “Sobrado dourado”, “Barracão é seu”, “Piedade” e “Tute de madame”, e partido-alto estilizado, aqueles sambas que têm a estrutura do partido, mas foram compostos sem a improvisação dos versos, como é o caso de um monte de sambas do Nei Lopes, entre eles “Goiabada cascão”, “Fidelidade partidária” e “Mocotó do Tião” (parcerias com o grande Wilson Moreira) e faixas dos discos de Martinho da Vila, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e Fundo de Quintal.
As sete rodas de partido-alto serão realizadas nos dias 26 de agosto, 30 de setembro, 7 e 21 de outubro, 11 e 25 de novembro e 9 de dezembro, sempre às 19h. O endereço do Sesc Madureira é Rua Ewbanck da Câmara, 90, em Madureira, Rio de Janeiro. Informações: 3350.7744. A entrada é grátis!










