abr
25

Sandra Werneck em uma palavra? Maternal. Em duas? Maternal e tranquila. Em três? Maternal, tranquila e cinéfila. Antes que a brincadeira vire o jogo da memória, vamos à notícia: a diretora está em cartaz com o filme ‘Sonhos roubados’, um retrato social da vida de três adolescentes da periferia às voltas com assuntos complicadíssimos, como gravidez fora de hora, famílias desconstruídas e aperto financeiro. “Quando estava finalizando o documentário ‘Meninas’, sobre gravidez precoce, encontrei numa livraria o título ‘As meninas da esquina’, da Eliane Trindade. Lembro que estava tão envolvida naquele processo que entendi que o livro era, na verdade, um prosseguimento do meu filme”, diz.

A cineasta disputou com meia dúzia de interessados de peso o direito de filmar a obra e, há três anos, começou a trabalhar no projeto. Venceu dois editais, da Petrobras e do BNDES, e saiu em campo em busca das jovens que viveriam Jéssica (Nanda Costa, premiada no Festival do Rio como melhor atriz), Daiane (Amanda Diniz) e Sabrina (Kika Farias). Das três, Amanda já havia atuado na televisão, no papel de Narizinho do Sítio do Picapau Amarelo, e Kika era a menos experiente. “Apostei nela por causa do sotaque pernambucano. Além de dar um charme para o filme, reproduz um pouco o que acontece nas comunidades, com as meninas vindo do Nordeste brasileiro atrás de uma oportunidade”, situa.

Nessa altura da entrevista, Sandra anuncia que vai acender um cigarro. A conversa escorrega para a vida pessoal, já que fumar, atualmente, virou sinônimo de transgressão. Sandra mora no Leblon e há 31 anos tem uma filha, Maya, fruto de seu casamento de oito anos com o cineasta Silvio Da-Rin. Com sangue da cor de película correndo nas veias, Maya nasceu para o cinema. Foi co-roteirista do argumento de um dos maiores sucessos comerciais da mãe, ‘Amores possíveis’ e, seguindo a trilha dos pais, hoje faz documentários.

“O trabalho dela é totalmente diferente do meu. É mais investigativo, focado na questão da imagem, com um tempo mais lento. ‘Terras’, rodado na fronteira Brasil-Peru-Colômbia, está sendo convidado para todos os grandes festivais. Mais do que ‘Sonhos roubados’. Ela agora vai para Guadalajara e o ‘Sonhos’ não vai. Quer saber? Adorei”, diz, com um sorrisão estampado no rosto. Num momento, Sandra confessa que, se pudesse, teria um elenco inteiro de filhos e que, talvez, seja esse o maior arrependimento de sua vida: ter feito 16 filmes e apenas uma filha de carne e osso. Diz que sempre ficava na dúvida entre realizar mais um documentário ou engravidar. Escolhia a primeira opção.

E nunca elaborou seus filmes pensando nos ganhos materiais. Era uma questão de sobrevivência intelectual. “Eu sempre digo: ‘Agora não tenho dinheiro para lançar o filme. Como vai ser? É o último que faço’. Logo depois, já me envolvo em outro. O que me move é a realização dos meus projetos”. Sandra Werneck gosta muito de solidão e de literatura. Está sempre em algum canto aconchegante, com um bom livro nas mãos. Na juventude, vivia na noite, mas há tempos é completamente do dia. Conta que tem acordado tão cedo que tem feito café para a empregada! E solta mais uma sonora gargalhada. O que faz além de cinema? Vê muitos filmes, em casa e nas salas de exibição.

“Sou tranquila e a única coisa que me tira do sério é a falta de compromisso. O resto eu contorno. Mas, claro, tenho imperfeições: acho que sou muito obsessiva e pragmática”, se autodescreve. Sandra tem um refúgio em Itaipava, onde esquece da vida urbana e, ali sim, se entrega ao ócio criativo. “Gosto da natureza. Não sou uma pessoa de muitas demandas. Aliás, acredito que minhas demandas sejam mais internas, da linha ‘Será que tenho capacidade de fazer tal filme?’”. Um longa metragem novo se delineia na cabeça da diretora: a biografia da escritora Clarice Lispector. “Adoraria fazer mas, ao mesmo tempo, é um projeto super perigoso”. Outras biografias em vista? Sim, da cantora Cássia Eller e da socialite Danuza Leão. Três mulheres admiráveis, certamente. Tão admiráveis quanto Sandra Werneck.

Ela se posicionou atrás de uma Super 8 pela primeira vez em 1976, recém-chegada da Holanda, onde aprendeu as manhas do cinema. O documentário ‘Bom dia, Brasil’ girava em torno de um rapaz que imigra do Nordeste para o Rio de Janeiro. Perdido na cidade grande, acaba vendendo envelopes na feira de São Cristóvão. Era uma espécie de ficção documental. “Depois comecei a trabalhar nos filmes de amigos, como Mariza Leão e Pedro dos Anjos, e também com meu ex-marido, Silvio Da-Rin. Logo depois, fiz outro curta, chamado ‘Rito de passagem’ e não parei mais”. A maioria de seus trabalhos é de temática social, priorizando o universo de crianças e adolescentes, entre eles ‘A guerra dos meninos’, de 1991, premiado como melhor filme e direção em Gramado e ganhador de outros troféus nos festivais de Amsterdã e Havana.

Num certo momento, Sandra Werneck quis investir em comédias românticas – e fez os vitoriosos ‘Pequeno dicionário amoroso’ (1996) e ‘Amores possíveis’ (2000), também premiadíssimos. Em 2006, lançou a cinebiografia ‘Cazuza – o tempo não pára’, co-dirigido por Walter Carvalho e campeão nacional de bilheteria daquele ano, com mais de três milhões de espectadores. Foi quando sentiu que era hora de voltar à temática inicial. Rodou ‘Meninas’ no mesmo ano de ‘Cazuza’ e emendou com o novo ‘Sonhos roubados’. Férias? Que nada. Ela já planeja filmar ‘Um lugar do desejo’, a história de duas mulheres na qual uma quer a vida da outra, um filme sobre escolhas. “Acho que o cinema sempre me salvou. Foi onde coloquei todas as minhas angústias, alegrias e tristezas”, confessa.

Mais uma característica de Sandra Werneck para você puxar conversa quando cruzar com ela na rua: a cineasta é do tipo que faria tudo igual se pudesse entrar numa máquina do tempo e voltar, por exemplo, aos anos 70. Um desses frames (para usar um termo do meio) mágicos foi quando ganhou o Sundance com ‘Amores possíveis’. “Foi a minha maior alegria no cinema. Estávamos concorrendo com filmes muito bons, entre eles ‘Eu tu eles’, que tinha uma grande distribuidora por trás. Eu e Maya fomos exaaaustas para a cerimônia e nos sentamos nas últimas fileiras. Usei um vestidinho curto qualquer porque sabia que não venceria. De repente, veio o anúncio e tremi inteira. Foi, sem dúvida, o episódio mais emocionante de toda a minha carreira”.

Perfil publicado na Revista Voetrip deste mês

abr
25

Enquanto toneladas de fogos comemorarem a chegada de 2012, alguém há de lembrar do suicídio do cartunista Péricles de Andrade Maranhão, ocorrido 50 anos antes. Para quem ainda não ligou o criador à criatura, uma dica: foi ele quem desenhou o personagem mais popular do Brasil nas décadas de 1940 e 1950. Outra ajudinha: era um garçom com os traços semelhantes aos do compositor Lamartine Babo e olhos grandes, de peixe morto, que caprichava na quantidade de gumex no cabelo e não pensava duas vezes na hora de mandar uma piada arrasadora, capaz de desmanchar qualquer laço de afeição. Agora ficou fácil? Sim, acertou! Estamos falando do legendário Amigo da Onça.


Politicamente incorreto, sarcástico beirando a maldade, com aquele ar superior de quem está sempre armando o bote, o Amigo da Onça era, ainda assim ou por isso mesmo, irresistível. Foi criado em 1943, quando o pernambucano iniciava a vida no Rio de Janeiro, para onde se mudou no ano anterior, aos 17, a fim de arriscar um emprego na cidade. Bateu direto na redação de O Cruzeiro, cheia de conterrâneos. “Péricles tinha a mesma idade de um jovem contínuo e gráfico, que trabalhava na fotografia: Millôr Fernandes era seu nome, e já escrevia textos na publicação, além de traduzir quadrinhos e pequenos contos”, situa o também cartunista Chico Caruso, autor da peça ‘O amigo da Onça’, que estreou em 1987 no Teatro Dulcina, Centro do Rio.

Caruso diz que Péricles e Millôr compartilharam uma página dupla na revista, com cartuns do primeiro e, naturalmente, escritos do segundo. No entanto, “como o desenhista não era muito pontual nas entregas, Millôr começou a fazer suas ilustrações, o que acabou dando no Pif-Paf e todo o sucesso que veio depois”. Só que cada um tem o seu lugar na história e a arte de Péricles influenciou o trabalho de muitos artistas. Cássio Loredano, um dos mais conceituados caricaturistas do país, por exemplo, conheceu e se encantou com a obra de Péricles quando ainda usava calças curtas e, na verdade, não compreendia sozinho os recados que o cartunista mandava.

“Aprendi humor com ele, através da Dona Leda, minha mãe. Papai era militar e vivíamos sendo transferidos para os mais remotos lugares do planeta. Toda semana, meu pai chegava em casa com O Cruzeiro debaixo do braço. Lembro bem que ele abria direto na página do Amigo da Onça e gargalhava furiosamente. Eu procurava achar graça naquilo, mas não entendia nada porque era piada para adultos. Então, com a maior boa vontade do mundo, assim que o papai largava a revista, minha mãe sentava ao meu lado e me explicava tudo direitinho”, recorda Loredano. Mas de onde veio a inspiração para criar um personagem com a alma tão galhofeira?

É Chico Caruso quem conta: “Ao Péricles, encomendaram um personagem que se espelhasse no famoso ‘El enemigo del hombre’, de uma revista argentina, que, por sua vez, fora influenciado por uma publicação americana, Esquire talvez, e que se chamava ‘The enemy of man’. Em sua pesquisa, num bar, Péricles viu um garçom muito chato, que tudo queria saber e tal e coisa, e teve o estalo: é ele! A partir daí, fez o Amigo da Onça, só comparável em popularidade, anos depois, aos personagens de Henfil e, mais recentemente, aos de Angelli, Laerte e Glauco”.

No auge do personagem, em meados dos anos 50, realizaram uma pesquisa entre os leitores de O Cruzeiro para descobrir quais eram as editorias mais lidas. Você não vai ficar surpreso ao saber que deu Amigo da Onça na cabeça – e com margem de folga! Na ocasião, provavelmente a charge já havia sido promovida à área, digamos, mais nobre da publicação: a parte de dentro. O objetivo era fazer com que as pessoas comprassem a revista, que, em princípio, estampava os cartuns de Péricles na capa e na contra-capa, facilitando a leitura no próprio jornaleiro. Além de arrancar risadas dos leitores, o Amigo da Onça foi usado para fazer crítica social, descendo o sarrafo em instituições sagradas, como o casamento, e deixando os chefes estressados em maus lençóis, mas, principalmente, retratando o homem como lobo do homem.

“Existe uma caricatura antológica: um português suarento, subindo uma ladeira com um relógio de parede enorme nas costas. Então, o Amigo da Onça passa por ele, lépido, arrumadinho, e, enquanto dá corda no relógio de pulso, quer saber que horas são para acertar os ponteirinhos dele”, descreve Cássio Loredano, resumindo o espírito do garçom de tiradas inteligentes. Charges como essa foram a sensação da revista entre 23 de outubro de 1943 e 3 de fevereiro de 1962. O personagem sobreviveu ao seu criador por apenas um mês e três dias, através das tintas do desenhista Carlos Estevão. Como Péricles morreu? Em 31 de dezembro de 1961, o artista vedou o seu apartamento e abriu o gás. E não foi amigo da onça de ninguém. Pelo contrário. Deixou um bilhete do lado de fora da porta avisando: “Não risquem fósforos”.

Publicada originalmente na revista Carioquice, editada pelo Instituto Cravo Albin

mar
30

O Copacabana Palace abre novamente os seus salões para três noites inesquecíveis do melhor da música instrumental brasileira. No elenco, alguns dos nossos gigantes, que têm uma sólida carreira internacional e costumam se apresentar mais no exterior do que aqui. A segunda edição do Copa Fest, que marca a entrada do evento no calendário cultural do Rio de Janeiro, será realizada nos dias 16, 17 e 18 de abril. Além de atrações que há muito não tocam na cidade, como Hermeto Pascoal e Cesar Camargo Mariano, o festival inaugura uma nova etapa: a partir de agora, haverá Copa Fest duas vezes por ano.

“O desenho do festival, que mescla grandes nomes e novos talentos, demonstra o vigor e a longevidade da nossa música instrumental, respeitada no mundo inteiro”. A afirmação é de Carol Rosman, uma das curadoras do Copa Fest, ao lado de Bernardo Vilhena, que enfatiza: “Queremos fazer um evento dedicado à música e aos músicos. Eles são as estrelas, com todo espaço do palco para mostrar seus talentos individuais, suas composições próprias, os clássicos e também novos standards”. Carol já produziu incontáveis shows instrumentais e Bernardo é poeta, compositor, pesquisador e produtor de discos e shows de Gal Costa e Lobão, entre outros.

O Copa Fest estreia na sexta, dia 16, às 21h, com o multiinstrumentista Zé Luis e a Banda Magnética. Carioca radicado em Nova York há 20 anos e conhecido por aqui do tempo em que acompanhava Caetano Veloso, Ney Matogrosso, Gilberto Gil e Cazuza, o músico assina os arranjos dos clássicos contemporâneos do repertório da Banda Magnética, formada por nove jovens de 14 a 25 anos. A Magnética volta ao Copa Fest devido ao grande sucesso na edição anterior e por representar o ideal do festival de renovação de artistas e público. Às 23h, o alagoano Hermeto Pascoal (foto abaixo), um dos criadores do legendário Quarteto Novo, vem espalhar sua música surpreendente na plateia do Copa Fest. Esse show rompe cerca de seis anos de ausência, tempo em que o bruxo está radicado em Curitiba. Hermeto vai trazer a tiracolo sua obra curiosamente simples e sofisticada, feita com bacias, garrafas e outros objetos que viram instrumentos e alcançam sonoridades únicas.

O violonista Chico Pinheiro inaugura os trabalhos de sábado, dia 17, às 19h. Aos 35 anos, já compartilhou acordes com músicos e cantoras incríveis, como Brad Mehldau, Dave Holland, Esperanza Spalding, Rosa Passos e Luciana Souza. Em seguida, às 21h, o compositor, cantor e pianista Marcos Valle apresenta o show instrumental que costuma lotar teatros fora do país. Para fechar a noite, o super tecladista Cesar Camargo Mariano desembarca no palco do Golden Room com seu trio, completado por Marcelo Mariano no baixo e Jurim Moreira na bateria. O músico participou do surgimento da bossa nova, foi arranjador dos maiores sucessos de Wilson Simonal e tocou em discos importantíssimos da MPB, entre eles o antológico ‘Elis & Tom’. Cesar mora nos Estados Unidos desde 1994 e essa será uma oportunidade rara de conferir sua música de perto.

No domingo, dia 18, o pianista Osmar Milito – que nas palavras do maestro Paulo Moura “tem a bossa nova toda debaixo dos dedos” -, recebe convidados às 18h numa saborosa jam session. Também escalado no ano passado, Milito está se tornando uma tradição do festival. Outra tradição é a rapaziada do coletivo Vinil é Arte, que foi elogiadíssima em 2009. Eles fizeram, literalmente, a festa no Lounge Copa Fest com suas pick-ups e coleção de vinis espetaculares. Conquistaram admiradores de todas as idades e, atentendo a pedidos, voltam nesta edição, com entrada franca para quem quiser dar uma passada no Copacabana Palace só para curtir o som da época do surgimento da bossa nova e bebericar os drinks do lounge.

De acordo com Isabel Seixas, sócia da M´Baraká Experiências Relevantes, “o Copa Fest foi pensado para celebrar, reviver e revitalizar a sonoridade instrumental brasileira que teve em Copacabana um dos mais criativos territórios. O festival associa duas grandes marcas cariocas reconhecidas internacionalmente e motivo de orgulho dos cariocas: a nossa música e o bairro”. A M’Baraká, produtora do evento e também responsável pelo design e pela cenografia do festival, prepara uma experiência inspirada nas diversas camadas e contrastes da região. A proposta é provocar o público numa ambientação que insinua imagens e expressões da nossa música, do Copacabana Palace e de Copacabana.

Este ano, o Copa Fest é patrocinado pela Unimed Rio, com co-patrocínio do Copacabana Palace e apoio do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). E a assessoria de imprensa é minha : )

QUANDO: dias 16, 17 e 18 de abril, em horários variados
ONDE: Copacabana Palace (Av. Atlântica, 1702, em Copacabana. Tel: 2548.7070)
QUANTO: os shows custam R$ 80, com meia entrada (R$ 40) para estudantes e maiores de 65 anos.
NA COMPRA DE INGRESSOS PARA DOIS SHOWS: 15% de desconto. Válido apenas para inteiras.
ETCÉTERA: classificação 16 anos; 276 lugares

mar
16

Mariana Baltar lança pela gravadora Biscoito Fino o álbum que leva o seu nome. É a segunda bolacha da cantora e bailarina que estreou em disco há quatro anos, com o elogiadíssimo ‘Uma dama também quer se divertir’. Chique como ela só, a moça está acompanhada por alguns músicos de nobre linhagem. “A liga do disco está na sonoridade e no repertório, escolhido a partir das emoções que as músicas me provocam”, diz. Produzido por Josimar Carneiro e com arranjos dele, de Jayme Vignoli, Marcílio Lopes e Luiz Flavio Alcofra, o disco reúne futuro e passado, através das composições de jovens e veteranos autores da música popular brasileira.

“É tudo acústico, mas nada careta. A ousadia está nos arranjos e na aposta em gravar Thiago Amud e Edu Kneip. Continuo a ser doce e suave, como as pessoas me vêem, mas já não apareço em tons pastéis, digamos assim. E sem renegar a Lapa e tudo o que sua noite me ensinou”. O disco foi todo muito bem pensado. “Para a arte da capa, por exemplo, quis remeter à manifestação Nego Fugido, que ocorre em Acupe, pequena cidade do Recôncavo Baiano. É uma encenação popular da fuga dos escravos sendo perseguidos pelos capitães do mato. Parte da roupa dos capitães é uma saia de folhas de bananeira secas e as bocas de todos eles são borradas com uma tinta vermelha cor de carmim. É lindo! Nas fotos, as folhas secas foram para o chão e o vermelho veio para a minha boca, para um pano que fez as vezes de saia e para minhas unhas”, rebobina.

O disco abre com “Tia Eulália na xiba” (Claudio Jorge e Nei Lopes), primeira a entrar no roteiro. “De todas as selecionadas, essa foi a única que nunca saiu da lista”, revela Mariana, que já canta esse clássico há um tempão e adora ver os casais riscando o salão ao seu balanço. Em seguida, é a vez da toada “Maldita cancela” (Delcio Carvalho e Osório Peixoto), que a intérprete conheceu na gravação do cantor Lucio Sanfillipo. O baião “Sertão do Vale” (Zé Paulo Becker e Mauro Aguiar) homenageia João do Vale e evoca as heranças nordestinas da cantora, que é filha de pernambucano – o sobrenome Baltar vem daí – e morou uns anos em Recife, para onde sempre retorna a fim de visitar os parentes e beber na fonte cultural da região, sobretudo de dança e música, às quais é extremamente ligada.

De Assis Valente, compositor cantado por Mariana desde o início da carreira, entrou o dançante “Uva de caminhão”. Ela já havia gravado esse samba para tocar numa rádio carioca. “Na ocasião, o programador me disse que tocaria a música, da qual é fã, caso eu gravasse num disco”. Inspirada pela convivência com chorões, ela quis fazer o seu registro do ligeiro “Teco teco” (Pereira da Costa e Milton Villela), sucesso na voz da Gal Costa: “É brejeiro e divertido”. Na faixa cinco, “Canções de menina” (Thiago Amud e Pedro Moraes), o disco refresca levemente, acalmando as melodias. “Gosto de várias obras desses meninos, mas elas soavam masculinas. Perguntei, de brincadeira, se eles tinham música para menina cantar. Logo depois, Pedro apareceu com a letra que Thiago musicou”, conta.

Faixa-título do mais recente álbum do grupo vocal Garganta Profunda, “Quando a esquina bifurca” (Thiago Amud) exalta a Urca, bairro carioca onde nasceu e mora o compositor. Apesar de não ser inédita, é pouco conhecida e agradou em cheio Mariana, ex-moradora do aprazível lugar. De Thiago Amud e Edu Kneip, a canção de letra forte e ousada “Sonâmbulo” tem um significado importante porque dela saiu o nome do núcleo musical que gira em torno da dupla, e do qual Mariana faz parte, chamado Sonâmbulos. Na sequência, vem a marcha-rancho “Canção marinha” (Luiz Flavio Alcofra e Lenildo Gomes), carregada de uma dose generosa de sensualidade velada. E a temperatura do disco sobe novamente, fazendo o público abandonar as cadeiras.

“Tanto samba” (Julião Pinheiro e Paulo César Pinheiro) chegou por e-mail e surpreendeu Mariana, que, confessa, havia recebido toneladas de sambas sem se identificar de verdade com nenhum. Até escutar a parceria de pai – e que pai! (risos) – e filho. Aliás, ouvidos atentos nos passos musicais de Julião, ótimo violonista. Mariana conta que “Tudo à toa” (Edu Kneip e Mauro Aguiar) sempre foi a canção mais pedida das que cantava com os Sonâmbulos. “Fui me apropriando desta valsa pouco a pouco e decidi gravá-la”. O forte “Jongo do irmão café” (Wilson Moreira e Nei Lopes) vingou no roteiro porque Mariana admira bastante a obra da dupla e sonha em gravar parte do repertório afro e rural de Wilson. “Abro e fecho o disco com parcerias do Nei. As duas foram pinçadas no antológico ‘Negro mesmo’, um disco fundamental”.

* Texto de Monica Ramalho e fotos de Carol de Hollanda *

mar
10

Vamos começar
Colocando um ponto final
Pelo menos já é um sinal
De que tudo na vida tem fim

Vamos acordar
Hoje tem um sol diferente no céu
Gargalhando no seu carrossel
Gritando nada é tão triste assim

É tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

Vamos celebrar
Nossa própria maneira de ser
Essa luz que acabou de nascer
Quando aquela de trás apagou

E vamos terminar
Inventando uma nova canção
Nem que seja uma outra versão
Pra tentar entender que acabou

Mas é tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

* Letra e música do Moska *

mar
08

O saxofonista Henrique Band se apresenta no Almanaque do Samba-Jazz na próxima terça, dia 9 de março, com seu hepteto e a participação especial do pianista Antonio Adolfo (foto), que está radicado em Miami e vem ao Brasil exclusivamente para fazer estes shows. A série está em cartaz no CCBB até 30 de março. No roteiro, temas como “Nanã” (Moacir Santos e Mario Telles), “Jangal” (Orlandivo e Rubens Bassini), “Peter Samba” (Durval Ferreira e Maurício Einhorn), “Você” (Rildo Hora e Clovis Mello) e “Céu e mar” (Johnny Alf). De Antonio Adolfo, entram os antológicos “Cascavel” e “Tema 3-D”; e de Henrique Band, “Praça da Bandeira” e “Antonio”, gravados no elogiado álbum ‘Caleidoscópio’.

Na quarta semana da série, Paulo Moura é o convidado do trio liderado pelo jovem pianista David Feldman. O penúltimo encontro reúne o gaitista Mauricio Einhorn e o Sambajazz Trio, formado por Kiko Continentino ao piano, Luiz Alves ao contrabaixo e Clauton “Neguinho” Sales em inusitada combinação de trompete e bateria. E o show que encerra a série é conduzido pela Almanaque Samba-Jazz Band, criada especialmente para o projeto, tendo o saxofonista argentino Hector Costita como convidado especial do quarteto formado pelo pianista Rafael Vernet, o contrabaixista Guto Wirtti, o baterista Rafael Barata e Eduardo Neves nos sopros.

Os shows acontecem às terças-feiras, em dois horários: às 12h30 e às 19h. Com ingressos a preços populares (R$ 6), a série relembra como o samba-jazz uniu a sofisticação do jazz a elementos do samba na criação de uma sonoridade brasileira, rica harmonicamente, rítmica na essência e vibrante na execução. “Com este Almanaque ao vivo espero que se compensem em parte o esquecimento do samba-jazz na memória da música brasileira e a atual indisponibilidade dos fonogramas gravados por estes músicos há 50 anos, a maioria fora de catálogo, o que torna difícil o acesso e acaba dando a falsa impressão que este som é elitista”, explica Edison Viana.

mar
04

Por apresentar todas as noites grandes nomes do jazz americano, o Village Vanguard ganhou fama e prestígio em Nova York. E o mais importante: manteve os mesmos predicados ao longo desses 75 anos em atividade, completados em 23 de fevereiro último, graças ao espaço que sempre ofereceu aos melhores jazzistas daquele país. É exatamente nesse espírito que o piano-bar Lapinha abre suas portas. No lugar do jazz, entra em cena a música brasileira, seja contemporânea ou tradicional, cantada ou instrumental. A divulgação é minha!

Lapinha é a primeira e única casa de shows dedicada à MPB no bairro carioca, fortemente associado ao renascimento do samba e choro há uma década e, na verdade, boêmio em sua gênese. Com petiscos e drinques saborosos, palco aconchegante, ótimo sistema de som, instrumentos novinhos em folha e uma programação impecável, o piano-bar será inaugurado com festa na noite de 10 de março. Sob os holofotes, Leny Andrade e Nei Lopes, juntos para convergir num show a musicalidade da Zona Sul e da Zona Norte cariocas com tempero latino.

“O Lapinha será uma casa única e pioneira. Seu compromisso é inverter a lógica que norteia as casas de show, hoje limitadas à simples divulgação da produção musical”, afirma a flautista e produtora Tereza Quaresma. “E nós queremos mostrar grandes nomes da música nacional como o público nunca viu, num ambiente íntimo, despojado e aberto à criação”, instiga ela, que tem como sócios o pesquisador e crítico musical Hugo Sukman, o produtor Luís Pimenta e o maestro Ruy Quaresma.

O quarteto escolheu esse nome por dois motivos: pela referência carinhosa ao bairro onde a casa está localizada e, principalmente, por causa da cantora lírica e atriz Joaquina Maria da Conceição Lapa, brasileira que fez muito sucesso em Lisboa no final do século XVIII, e ficou conhecida como Lapinha. É ela quem aparece na logomarca da casa, assinada pelo artista gráfico Mello Menezes. Ruy Quaresma explica, com graça e alegria, a criação de Menezes:

“Na ausência de registros iconográficos, o artista acendeu uma vela, tomou um gole de marafu e, em profundo transe, aguardou o contato de Lapinha. Mas, segundo ele, por um problema de conexão, ‘baixou’ a Anastácia. Ele agradeceu a deferência e, trocando de frequência, conseguiu uma conexão visual, mesmo que em preto e branco, da grandiosa diva Joaquina Maria da Conceição Lapa, nossa Lapinha pioneira. E psicografando o mestre Rugendas, traçou a imagem daquela que dá nome ao nosso piano-bar, também pioneiro, na Lapa”.

fev
26

Começa. É difícil
Passar a essa atitude
Conseguir um novo início.

E a todo tempo é preciso
Fora da esfera da juventude
A toda hora: um novo viço.

Começa agora. Algo que voa
Envia, arremessa
Aproveitando o que era, ressoa

O passado e principia.

O tempo não é um peso,
O vivido é viver e é promessa
O haver conhecido outros começos

Favorece este novo que começa

* Iniciação, poema de Janice Caiafa *

fev
15

(O que inclui alguns tombos pelo caminho rs)

fev
08

“A porta representa de maneira decisiva como o separar e o ligar são apenas dois aspectos de um mesmo e único ato. O homem que primeiro erigiu uma porta ampliou, como o primeiro que construiu uma estrada, o poder especificamente humano ante a natureza, recortando da continuidade e infinitude do espaço uma parte e conformando-a numa determinada unidade segundo um sentido”

* Frase do sociólogo alemão Georg Simmel (1858-1918) *

Monica Ramalho

Monica Ramalho

Por Val Becker

Como me achar

(21) 9163.0840
moniramalho@gmail.com

Arquivo