Posts em ‘Cineclube laranja’
Sonhos possíveis
Sandra Werneck em uma palavra? Maternal. Em duas? Maternal e tranquila. Em três? Maternal, tranquila e cinéfila. Antes que a brincadeira vire o jogo da memória, vamos à notícia: a diretora está em cartaz com o filme ‘Sonhos roubados’, um retrato social da vida de três adolescentes da periferia às voltas com assuntos complicadíssimos, como gravidez fora de hora, famílias desconstruídas e aperto financeiro. “Quando estava finalizando o documentário ‘Meninas’, sobre gravidez precoce, encontrei numa livraria o título ‘As meninas da esquina’, da Eliane Trindade. Lembro que estava tão envolvida naquele processo que entendi que o livro era, na verdade, um prosseguimento do meu filme”, diz.
A cineasta disputou com meia dúzia de interessados de peso o direito de filmar a obra e, há três anos, começou a trabalhar no projeto. Venceu dois editais, da Petrobras e do BNDES, e saiu em campo em busca das jovens que viveriam Jéssica (Nanda Costa, premiada no Festival do Rio como melhor atriz), Daiane (Amanda Diniz) e Sabrina (Kika Farias). Das três, Amanda já havia atuado na televisão, no papel de Narizinho do Sítio do Picapau Amarelo, e Kika era a menos experiente. “Apostei nela por causa do sotaque pernambucano. Além de dar um charme para o filme, reproduz um pouco o que acontece nas comunidades, com as meninas vindo do Nordeste brasileiro atrás de uma oportunidade”, situa.
Nessa altura da entrevista, Sandra anuncia que vai acender um cigarro. A conversa escorrega para a vida pessoal, já que fumar, atualmente, virou sinônimo de transgressão. Sandra mora no Leblon e há 31 anos tem uma filha, Maya, fruto de seu casamento de oito anos com o cineasta Silvio Da-Rin. Com sangue da cor de película correndo nas veias, Maya nasceu para o cinema. Foi co-roteirista do argumento de um dos maiores sucessos comerciais da mãe, ‘Amores possíveis’ e, seguindo a trilha dos pais, hoje faz documentários.
“O trabalho dela é totalmente diferente do meu. É mais investigativo, focado na questão da imagem, com um tempo mais lento. ‘Terras’, rodado na fronteira Brasil-Peru-Colômbia, está sendo convidado para todos os grandes festivais. Mais do que ‘Sonhos roubados’. Ela agora vai para Guadalajara e o ‘Sonhos’ não vai. Quer saber? Adorei”, diz, com um sorrisão estampado no rosto. Num momento, Sandra confessa que, se pudesse, teria um elenco inteiro de filhos e que, talvez, seja esse o maior arrependimento de sua vida: ter feito 16 filmes e apenas uma filha de carne e osso. Diz que sempre ficava na dúvida entre realizar mais um documentário ou engravidar. Escolhia a primeira opção.
E nunca elaborou seus filmes pensando nos ganhos materiais. Era uma questão de sobrevivência intelectual. “Eu sempre digo: ‘Agora não tenho dinheiro para lançar o filme. Como vai ser? É o último que faço’. Logo depois, já me envolvo em outro. O que me move é a realização dos meus projetos”. Sandra Werneck gosta muito de solidão e de literatura. Está sempre em algum canto aconchegante, com um bom livro nas mãos. Na juventude, vivia na noite, mas há tempos é completamente do dia. Conta que tem acordado tão cedo que tem feito café para a empregada! E solta mais uma sonora gargalhada. O que faz além de cinema? Vê muitos filmes, em casa e nas salas de exibição.
“Sou tranquila e a única coisa que me tira do sério é a falta de compromisso. O resto eu contorno. Mas, claro, tenho imperfeições: acho que sou muito obsessiva e pragmática”, se autodescreve. Sandra tem um refúgio em Itaipava, onde esquece da vida urbana e, ali sim, se entrega ao ócio criativo. “Gosto da natureza. Não sou uma pessoa de muitas demandas. Aliás, acredito que minhas demandas sejam mais internas, da linha ‘Será que tenho capacidade de fazer tal filme?’”. Um longa metragem novo se delineia na cabeça da diretora: a biografia da escritora Clarice Lispector. “Adoraria fazer mas, ao mesmo tempo, é um projeto super perigoso”. Outras biografias em vista? Sim, da cantora Cássia Eller e da socialite Danuza Leão. Três mulheres admiráveis, certamente. Tão admiráveis quanto Sandra Werneck.
Ela se posicionou atrás de uma Super 8 pela primeira vez em 1976, recém-chegada da Holanda, onde aprendeu as manhas do cinema. O documentário ‘Bom dia, Brasil’ girava em torno de um rapaz que imigra do Nordeste para o Rio de Janeiro. Perdido na cidade grande, acaba vendendo envelopes na feira de São Cristóvão. Era uma espécie de ficção documental. “Depois comecei a trabalhar nos filmes de amigos, como Mariza Leão e Pedro dos Anjos, e também com meu ex-marido, Silvio Da-Rin. Logo depois, fiz outro curta, chamado ‘Rito de passagem’ e não parei mais”. A maioria de seus trabalhos é de temática social, priorizando o universo de crianças e adolescentes, entre eles ‘A guerra dos meninos’, de 1991, premiado como melhor filme e direção em Gramado e ganhador de outros troféus nos festivais de Amsterdã e Havana.
Num certo momento, Sandra Werneck quis investir em comédias românticas – e fez os vitoriosos ‘Pequeno dicionário amoroso’ (1996) e ‘Amores possíveis’ (2000), também premiadíssimos. Em 2006, lançou a cinebiografia ‘Cazuza – o tempo não pára’, co-dirigido por Walter Carvalho e campeão nacional de bilheteria daquele ano, com mais de três milhões de espectadores. Foi quando sentiu que era hora de voltar à temática inicial. Rodou ‘Meninas’ no mesmo ano de ‘Cazuza’ e emendou com o novo ‘Sonhos roubados’. Férias? Que nada. Ela já planeja filmar ‘Um lugar do desejo’, a história de duas mulheres na qual uma quer a vida da outra, um filme sobre escolhas. “Acho que o cinema sempre me salvou. Foi onde coloquei todas as minhas angústias, alegrias e tristezas”, confessa.
Mais uma característica de Sandra Werneck para você puxar conversa quando cruzar com ela na rua: a cineasta é do tipo que faria tudo igual se pudesse entrar numa máquina do tempo e voltar, por exemplo, aos anos 70. Um desses frames (para usar um termo do meio) mágicos foi quando ganhou o Sundance com ‘Amores possíveis’. “Foi a minha maior alegria no cinema. Estávamos concorrendo com filmes muito bons, entre eles ‘Eu tu eles’, que tinha uma grande distribuidora por trás. Eu e Maya fomos exaaaustas para a cerimônia e nos sentamos nas últimas fileiras. Usei um vestidinho curto qualquer porque sabia que não venceria. De repente, veio o anúncio e tremi inteira. Foi, sem dúvida, o episódio mais emocionante de toda a minha carreira”.
Perfil publicado na Revista Voetrip deste mês
Essa semana assisti a dois filmes muito legais. ‘Sinédoque, Nova York’, a estreia na direção de Charlie Kaufman, que ficou conhecido pelos roteiros de ‘Brilho eterno de uma mente sem lembrança’ e ‘Quero ser John Malkovich’. Com essas credenciais, fiquei curiosa para ver o que ele seria capaz de criar sozinho. Bem, é uma história difícil de entender, de modo que já havia aceitado o enredo surrealista quando Val matou a charada. Na real, o que vemos são as distorções da cabeça pirada do dramaturgo Caden Cotard, vivido por Philip Seymour Hoffman. Pensar o filme sob esse ângulo torna as maluquices mais interessantes e compreensíveis. De zero a dez, nota seis e meio.

‘Na natureza selvagem’, dirigido pelo ator Sean Penn, é bem mais atraente. Quem nunca quis jogar meia dúzia de roupinhas nas costas e sair por aí? Eu até tenho a mochila, mas, digamos que gosto demais de conforto e não dormiria ao relento a não ser numa ocasião especial (risos). Mas gostei de ver o espírito livre do rapaz, interpretado por Emile Hirsch (foto) e parecido fisicamente com o Christopher McCandless verdadeiro. A trilha sonora é imperdível. Letras ótimas, melodias gostosinhas e vocais de Eddie Vedder. Nota oito.
Ficam as sugestões para esses dias natalinos. Os dois filmes fazem a gente pensar no que queremos da vida, do trabalho, da família, dos amigos, dos desconhecidos e de nós mesmos.
Entrei no cinema apenas para desanuviar as ideias e encontrei um filme de beleza arrasadora e significados plenos; com roteiro, direção, trilha sonora e tudo o mais nos trinques. Estou falando de ‘A Partida’, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro. Dirigido por Yojiko Takita, o longa-metragem narra a história do violoncelista Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki) que, por força das circunstâncias, retorna à pequena cidade onde nasceu a fim de recomeçar a vida ao lado de Mika (Ryoko Hirosue), a esposa mais fofa deste mundo! O emprego que aparece é numa funerária e, bem, o desenlace desse novelo você terá que ver com os próprios olhos. Aproveite que ainda está em cartaz
)
httpv://www.youtube.com/watch?v=1K3vKuWyEQk
(Perdão pelos posts corridos, viu? É que a vida está muito atarefada por aqui)
Comprei há dias este delicioso filme de 2004 e o revi ontem, entre
uma volta nas Paineiras e um trabalhinho bacana. A trilha sob medida de Jon Brion, o roteiro inventivo de Charlie Kaufman e a direção surpreendente de Michel Gondry fazem de ‘Brilho eterno de uma mente sem lembranças’ uma das comédias românticas hollywoodianas mais interessantes de todos os tempos. Kate Winslet e Jim Carrey estão maravilhosos; ela num papel que é a cara dele e Jim, vivendo uma personagem típica de Kate. Só para distrair, catei umas fotos da película na web para compartilhar aqui com você:

Das cenas mais bonitas do filme

Na livraria onde Clementine trabalha

Clementine e Joel num flagrante feliz

Os instigantes cabelos coloridos da moça
* Fotos de Ellen Kuras *
Terminei de ler esta madrugada o livro ‘As horas’ (1999), que deu origem ao filme homônimo (2002), de Stephen Daldry, estrelado por Nicole Kidman, Meryl Streep e Julianne Moore. Compartilho aqui com você um trecho bonito da obra, vencedora do Prêmio Pulitzer:

“Tinha parecido o começo da felicidade, e Clarissa ainda se choca, trinta anos depois, quando percebe que era a felicidade; que a experiência toda repousa num beijo e num passeio, na expectativa de um jantar e de um livro. O jantar já foi esquecido; Lessing foi há muito suplantada por outros escritores; e até mesmo o sexo, depois que ela e Richard chegaram a esse ponto, foi ardente mas canhestro, insatisfatório, mais gentil que passional. O que continua iluminado na mente de Clarissa, mais de três décadas depois, é um beijo ao entardecer, num trecho de grama seca, e um passeio em volta do lago, com mosquitos zumbindo no ar que escurecia aos poucos. Permanece intacta aquela perfeição singular, perfeita em parte porque parecia, na época, tão claramente prometer mais. Agora sabe: aquele foi o momento, bem ali. Não houve outro”.
* Texto de Michael Cunningham e foto de Seamus McGarvey *
Sabe pra que estudar inglês com tanto afinco? Pra entrevistar a Kate Winslet um dia! hahahahahaha. Mas falando sério: é ótima a entrevista que o repórter Marcelo Bernardes (um homônimo do saxofonista e flautista que toca, entre outros bambas, no Choro na Feira) fez com a atriz inglesa de 33 anos para a capa da revista Marie Claire.

“Querido, sou uma atriz. Estrelas de cinema são aquelas que têm seguranças, preparadores físicos, aviões. A única coisa mais glamurosa que costumo fazer é, vez outra, submeter-me a uma limpeza de pele”, avisa logo a a moça, que ‘adora pôr a mão no braço ou no joelho do seu interlocutor. O tique, parece, é usado para reforçar uma resposta’, explica o jornalista. Ainda bem que sou MUITO BOA de perguntas! ; )
Leia a reportagem, na íntegra, aqui!
Sim, eu também gosto do cinemão americano. E vejo praticamente todos os filmes que trazem os nomes dessas belezuras nos créditos. Kate já havia sido indicada seis vezes e Penélope é a primeira atriz espanhola a ganhar o Oscar!

Kate Winslet abocanhou a estatueta de Melhor Atriz pelo ótimo
‘O leitor’, dirigido por Stephen Daldry;

e Penélope Cruz levou para casa o prêmio de Atriz Coadjuvante
pelo divertido ‘Vicky Cristina Barcelona’, de Woody Allen.
* Kate por Roger Deakins e Penélope por Javier Aguirresarobe *
Um filme delicado e comovente sem, no entanto, chocar como imaginei baseada no relato de amigos. Diria que é ums história positiva, apesar do drama pessoal vivido por Jean-Dominique Bauby. O jornalista era editor da Elle francesa quando sofreu um derrame e ficou paralisado da cabeça aos pés, salvo o olho esquerdo, a memória e a imaginação. Acabo de assistir ao filme (é para ser visto com a luz do dia estalando lá fora) antes de iniciar o meu dia de trabalho. E posso garantir que esta será uma tarde de sol apesar do céu cinzento e da ventania que sacode as folhas das árvores através da janela.

Protagonizado por Mathieu Amalric e com as talentosas Emmanuelle Seigner (ainda mais bonita aos 42 anos) e Marie-Josée Croze no elenco, ‘O escafandro e a borboleta’ foi dirigido por Julian Schnabel em 2007. O roteiro é de Ronald Hardwood sobre as memórias de Bauby, que foram reunidas em livro, e a fotografia leva a assinatura de Janusz Kaminski. Ganhou um punhado de prêmios e várias indicações. Recomendo para quem vem achando a vida um pouco chata ultimamente.
* Cartaz do filme *




