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Grafite pelo mundo

Publicado por Monica Ramalho in A plástica das artes

Um grafiteiro que se preze evita mostrar o rosto e nunca divulga seu nome verdadeiro. Com Mundano não seria diferente. Até porque o trabalho do rapaz de 24 anos é cercado de tintas políticas. Não que ele seja candidato a algum cargo público. Longe disso! Mundano gosta mesmo é de incomodar as pessoas a ponto de fazer com que pensem. E, para isso, dispara mensagens que saltam dos muros emolduradas por rostos desconstruídos, nos quais sobram olhos grandes, narizes largos e cores, muitas cores. Os mesmos personagens aparecem em quase uma centena de carroças paulistanas. Sim, porque Mundano criou um projeto super interessante com os carroceiros da cidade que ele define como cinza. “Uma das minhas frases favoritas é ‘São Paulo é um cinzeiro’. O cinza predomina no asfalto, nos prédios, no céu”.

Batizado como ‘São Paulo 100 carroças’ e que virou ‘Cidade Reciclável’ quando ele organizou material para expor na Asa 70, uma galeria em São Paulo, o projeto foi idealizado com a finalidade de atuar como porta-voz dos catadores de materiais reutilizáveis na cidade. “Estava pintando um muro numa noite, há cerca de três anos, e conheci um carroceiro que tinha uma das carroças mais cheias que já vi. Resumindo a história: só consegui pintar os pneus dele, de tanta coisa que tinha amarrada nas laterais”. Mundano se surpreendeu com a sabedoria daquele homem simples e começou a bolar frases, na linha de ‘Eu reciclo. E você?’, ‘Meu carro não polui. E o seu?’ e ‘Meu trabalho é honesto’. Instigante.

Imediatamente, o artista notou uma mudança na auto-estima dos carroceiros, que passaram a posar para fotografias até de turistas ao lado de seus veículos pintados. Até a data de fechamento desta edição, Mundano havia deixado suas digitais coloridas em 79 carroças. Enquanto desvenda, com trocadilho, mundos com essas pessoas de fora do seu círculo social, o artista descobre lugares que jamais pisaria não fosse o grafite. Quem acompanha suas intervenções nas ruas, em breve poderá ver uma compilação desse material singular em um livro, no qual ele trabalha sem pressa. Mundano reconhece que os veículos improvisados atrapalham o trânsito já caótico de São Paulo. Em alguns grafites, ele cutuca: ‘Você passa mais tempo no trânsito do que com sua família’. No entanto, rejeita o título de ‘marginal’ usado em referência à atividade dessa gente humilde. “É um trabalho digno como o meu, de grafiteiro”.

Não por acaso, Mundano anda às turras com a Prefeitura de São Paulo, que vem apagando seus desenhos e tratando sua arte como sujeira. Isso porque no Brasil as pessoas tendem a simpatizar com o grafite (favor não confundir com pichação). Em meados de 2009, o rapaz trocou o Brooklin paulistano pelo Brooklyn novaiorquino durante um mês e observou que a vigilância daqui é fichinha perto do policiamento de Nova York. Detalhe: estamos falando da cidade onde o grafite nasceu. “As ações lá têm que ser muito mais rápidas, de preferência com dois artistas ao mesmo tempo, coisa de um minuto”. Das quatro semanas em NY, ele usou a metade para produzir as telas que expôs na galeria Factory Fresh. “No tempo restante visitei museus, circulei bastante e me arrisquei pintando nas ruas”, enumera.

Com a colaboração dos artistas Loro Verz e Apolo Torres, parceiros na temporada em Nova York, Mundano construiu uma carroça gringa para a mostra. “Usamos apenas materiais achados nas ruas de Nova York. E era tanta coisa boa que me espantou. Eles compram uma televisão nova, por exemplo, e jogam no lixo a antiga, mesmo que não esteja quebrada”. Antes dessa experiência, a arte de Mundano já havia rodado uma parte do globo terrestre, através de escambos de trabalhos com artistas argentinos, franceses, coreanos, israelenses e americanos. “Vendi recentemente pinturas minhas para colecionadores da Inglaterra, do Japão e da Itália”.

Embora sua identidade real permaneça oculta, como uma espécie de Clark Kent escondido atrás de um par de óculos e do crachá de repórter, o grafiteiro faz questão de explicar a escolha do pseudônimo: “Mundano é o trabalhador que viaja como sardinha em lata por mais de duas horas diárias para ir e voltar do trabalho, é a moça que assiste à novela anestesiada, é o gari que tenta limpar a cidade emporcalhada pela corrupção. Mundano é o carroceiro que recicla o lixo produzido pelo cidadão mundano que buzina, é o operário que come poeira a vida inteira para sustentar os filhos, é a criança que se cria numa cidade monstruosa como São Paulo, onde os valores que importam estão desaparecendo”.

Embora a maneira ideal de ver a arte de Mundano seja nas ruas de São Paulo, visite: www.flickr.com/photos/artetude

Perfil publicado na Voetrip de maio

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Uma resposta to “Grafite pelo mundo”

 
  1. Alan Parreira disse:

    Fala Mundano sue trampo é da hora!porfavor veja o meu no blog:alanparreira,blogspot.com

 

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Monica Ramalho

Monica Ramalho

Por Val Becker

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